ISO 26000 favorecerá o Greenwash?

por Tatiana Maia Lins

Muitas empresas recorrem à adoção de certificação na tentativa de construir uma boa imagem com seus stakeholders. As certificações mais famosas são as das normas ISO, desenvolvidas pela Organização Internacional para Padronização (em tradução livre para a International Organization for Standardization).

A tão aguardada ISO 26000, que versa sobre Responsabilidade Social, finalmente, está para sair. Depois de anos de debates, idas e vindas, decidiu-se que diferentemente das outras normas, as organizações que aderirem à ISO 26000 não serão passíveis de certificação. A norma será apenas um documento com diretrizes que as empresas e outras instituições interessadas devem seguir para que suas ações respeitem o meio ambiente e os agentes socias.

Quando a ISO 26000 deixa de lado o caráter certificador, ela joga a responsabilidade por seguir as diretrizes para as empresas, como um voto de confiança. Ela não atesta que todas as empresas que adotarem a norma serão igualmente responsáveis do ponto de vista social e ambiental. Ela deixa que o consumidor e os outros stakeholders verifiquem a adequação das ações da empresa com o discurso adotado.

E a pergunta que fica é: será que temos vigias suficientemente maduros em nossa sociedade para constatar se as instituições estão realmente agindo conforme o discurso? Ou esta “brecha” dará espaço para que o Greenwash cresça avassaladoramente?

Para os interessados, o Instituto Ethos lançou um site sobre a ISO 26000, com o objetivo de promover o debate e a compreensão da norma no Brasil. Para acessar o site clique aqui.

3 comments to ISO 26000 favorecerá o Greenwash?

  • Rodrigo Cotrim

    Pois é Tati, questão extremamente relevante a sua. Acredito que ainda não temos fiscais suficientemente engajados (capacitados até) para acompanhar a evolução deste processo. São muitas as carências que alimentam este ciclo produtivo poluidor e nada sustentável.

    No entanto, vejo também como uma oportunidade que está sendo dada para que a sociedade de posicione diante de um problema real. Começando pelas empresas, que são agentes ativos e transformadores de uma sociedade de consumo.

    A certificação atende a requisitos de mercado, fato que leva muitas empresas a perseguirem o “carimbo” sem internalizar o real sentido da causa. Quem sabe mudando a abordagem a aderência não passa a ser pela causa e não pela necessidade das empresas simplesmente serem certificadas?

    As empresas não existem enquanto seres, os indivíduos que compõem uma organização fazem ela ser o que é, do faxineiro ao presidente (sem demagogia). Portanto quem sabe isso não seria uma possibilidade de promover a “corrente do bem” no mundo corporativo pelos próprios indivíduos que estão diretamente envolvidos no processo? Não seria a oportunidade dos xerifes nascerem na própria empresa?

  • Pode parecer até parecer romantismo da minha parte, mas acredito que somente teremos um mundo relamente sustentável quando as grandes corporaçôes perceberem que produzem para as pessoas, e não é as pessoas que vivem para consumir aquilo que as empresas produzem.
    Estamos todos vivendo momentos de crise. Crise de valores, de significados, de sentimentos.
    As pessoas são medidas pelo que elas tem e não pelo que são. A importancia delas esta no quão rápido podem consumir e descartar para consumir mais e descartar mais em um ciclo vicioso que somente não é infinito porque a própria natureza vai se encarregar de por um fim, com ou sem a consciência despertada.
    Pode parecer até que eu me posiciono contra o avanço e o progresso, mas não. Simplesmente tenho consciência de que avançar ainda que seja em direção ao abismo não é exatamente avanço, mas suicídio. Um suicídio lento, gradual e inexorável rumo a destruição e à aniquilação.
    Responsabilidade social na minha opinião é muito mais do que um órgão qualquer demonstrar através de um carimbo ou de um certificado que uma empresa passa a fazer tudo o que foi sugerido.
    Responsabilidade social não se trata apenas de seguir normas para receber um certificado, mas se importar com as pessoas mais do que com os lucros.
    É verificar, perceber e sentir que pessoas estão ativas e vivas em todas as fases do processo, seja produzindo e somando aos produtos o valor de seu próprio esforço. Que são pessoas que transportam, que vendem, que compram e que permitem que toda esta intrincada rede pare em pé.
    Responsabilidade social é perceber que acima do lucro estão as pessoas, meio e fim de todo o processo.

  • Rodrigo Cotrim

    Jairo, concordo plenamente com você. Também vejo um grande equívoco no modelo que nós mesmos mantemos. Enquanto houver ausência de consciência social em nós, indivíduos, as coisas seguirão rumo ao temido abismo que citou.
    Obrigado pelas palavras, mais tentando nadar contra a corrente.
    Abraços.

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